13 fevereiro 2026

ChatGPT: da revolução tecnológica ao debate político

Quando o ChatGPT  foi apresentado pela OpenAI, em novembro de 2022, poucos imaginavam a velocidade com que iria transformar o nosso quotidiano digital. Em poucos dias tornou-se um tema de discussão global, uma ferramenta capaz de responder, explicar, resumir, programar e dialogar. Em poucas semanas entrou nas escolas, nas empresas, nas redações dos jornais e televisões e nas nossas casas. Ao fim de dois meses, já tinha ultrapassado os 100 milhões de utilizadores, um recorde no setor tecnológico. E, em poucos meses, deixou de uma curiosidade tecnológica para ser uma ferramenta quase indispensável no quotidiano digital de milhões de pessoas.

Por tudo isto, ao fim destes pouco mais de três anos depois, já não se discute apenas o que o ChatGPT consegue fazer. Discute-se também o seu impacto, as suas implicações políticas e o poder acumulado pelas empresas que lideram esta nova era da inteligência artificial. E é precisamente nesse ponto que estão recentemente a surgir grandes contestações.

Uma ascensão fulgurante

O crescimento inicial do ChatGPT foi impressionante: em cerca de dois meses, ultrapassou os 100 milhões de utilizadores. O lançamento do GPT 4, em 2023, consolidou a sua reputação técnica, sobretudo em tarefas de raciocínio complexo e programação.

A OpenAI estruturou-se como entidade híbrida: por um lado uma fundação sem fins lucrativos a manter controlo estratégico desta plataforma, e uma empresa com fins lucrativos responsável pela sua exploração comercial. A Microsoft assumiu-se, na altura, como a principal parceira tecnológica e financeira, e veio a integrar os modelos GPT no seu produto Copilot.

Atualmente, o ChatGPT conta com centenas de milhões de utilizadores ativos semanais, sendo que dezenas de milhões utilizam versões pagas. As receitas projetadas atingem valores na ordem das dezenas de milhares de milhões de euros por ano (embora os custos operacionais também sejam extremamente elevados devido à infraestrutura computacional necessária). Trata-se de uma plataforma com uma dimensão comparável às maiores empresas digitais globais.

Quando a tecnologia entra na arena política

É neste contexto de grande visibilidade e influência que está a surgir um movimento de contestação designado QuitGPT, incentivando utilizadores a cancelarem as suas subscrições. Mais do que uma crítica de caráter técnico, trata-se essencialmente de um protesto político.

Uma das principais razões deste movimento de contestação foi a divulgação de avultadas contribuições financeiras de dirigentes da OpenAI para organizações associadas a Donald Trump. Para muitos críticos, esta proximidade entre líderes tecnológicos e estruturas políticas levanta questões críticas de independência e responsabilidade.

Outro ponto sensível que justificou esta contestação foi a revelação de que o ICE, agência federal de imigração dos Estados Unidos, que tem estado tanto nas notícias, pelas piores razões, utilizava ferramentas baseadas em modelos GPT para triagem dos perfis dos seus alvos. A utilização de inteligência artificial em processos ligados a políticas migratórias muito controversas, acentuou os receios relativamente ao papel das tecnologias na execução de políticas públicas com uma forte carga ideológica.

Há ainda todas as críticas de natureza social e técnica de que se tem vindo a falar, e que já referi num artigo anterior: o impacto da IA no emprego, o risco de desinformação através de conteúdos sintéticos, o consumo energético associado aos grandes modelos e até uma alegada perda de qualidade em versões recentes do ChatGPT, com respostas consideradas demasiado extensas ou excessivamente cautelosas.

Para os organizadores do movimento, o objetivo não é apenas pressionar a OpenAI. É enfraquecer o que consideram ser um ecossistema de apoio tecnológico e financeiro à administração Trump. A lógica é reduzir a base de assinantes com o objetivo direto de afetar as receitas, o valor de mercado das empresas e, indiretamente, a capacidade de influência política por parte do setor tecnológico. Estamos, portanto, perante um fenómeno novo, que é também um sinal de maturidade: não se contesta um produto apenas por razões técnicas ou comerciais, contesta-se uma infraestrutura digital como forma direta de intervenção política.

Outras críticas

Embora existam também críticas no plano técnico, como respostas consideradas demasiado extensas ou excessivamente cautelosas, e preocupações sociais relativas a emprego, privacidade e consumo energético, estas têm sido usadas mais como reforço do discurso crítico do que como a principal razão do boicote.

O núcleo deste movimento é claramente político. Reflete a crescente perceção de que as grandes empresas de inteligência artificial não são neutras do ponto de vista social, uma vez que operam em ambientes regulatórios, económicos e institucionais que estão hoje profundamente politizados.

O que significa isto para nós, utilizadores comuns?

Para quem, como nós, utiliza o ChatGPT no dia a dia, seja para estudar, programar, escrever ou simplesmente esclarecer dúvidas, esta polémica pode parecer distante. No entanto, ela levanta uma questão relevante: até que ponto devemos avaliar as implicações políticas das plataformas digitais que usamos?

Na prática, a maioria dos utilizadores continuará a avaliar a ferramenta sobretudo pela sua utilidade, eficiência e custo. Mas é saudável que exista debate público sobre transparência, governação e responsabilidade das empresas tecnológicas.

O ponto essencial é, na minha opinião, mantermos um espírito crítico. Utilizarmos as tecnologias de forma consciente, compreendermos quem as desenvolve, como são financiadas e em que contextos elas são aplicadas. A inteligência artificial faz hoje parte do nosso quotidiano informático. O desafio não é rejeitá-la ou adotá-la de forma acrítica, mas sim integrá-la com discernimento.

E esse é, talvez, o tema de fundo mais importante desta discussão.

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