No mundo dos computadores pessoais, estamos habituados a que aquilo a que chamamos sistema operativo seja, por regra, o Windows, atualmente na sua versão mais recente: o Windows 11.
Tal como nos telemóveis, em que existem 2 grandes mundos - os iPhone da Apple, que usam o sistema operativo iOS, e os telemóveis de todos os outros fabricantes, que usam Android, também no caso dos PC temos os Mac da Apple, com macOS, e os PC de todos os outros fabricantes, que usam Windows (1). Só que, neste caso, os Mac da Apple representam um nicho bastante reduzido, em segmentos de mercado muito específicos, e os PC com Windows são totalmente dominantes, seja em casa, seja nas empresas ou na administração pública.
Se esta universalidade representa uma enorme vantagem em termos de compatibilidade e aprendizagem (uma vez termos aprendido a usar um computador com Windows, estarmos capacitados para usar qualquer outro, seja o da empresa ou o de um amigo que nos pediu uma ajuda), por outro lado representa uma enormíssima dependência tecnológica de um único país, os EUA, e de uma única empresa, a Microsoft.
Imaginem só o que aconteceria se, por absurdo, os EUA decidissem deixar de exportar essas tecnologias para os outros países (e, por muito inverossímil e absurdo que possa parecer, nos tempos que correm já nada é surpresa...). Pura e simplesmente o mundo pararia!
Esta problemática é aquilo a que, do ponto de vista dos países, se designa por Soberania Digital: a necessidade de os países tentarem combater o mais possível estas dependências tecnológicas.
Em busca da Soberania Digital
Foi esta razão que levou, recentemente, o governo francês a tomar uma decisão estratégica de abandonar o sistema operativo Windows, da Microsoft, em favor do Linux e de soluções de código aberto ('Open Source') (2).
Mas esta decisão da França não é única, é apenas o exemplo mais recente. Outros países ou regiões administrativas tomaram recentemente decisões no mesmo sentido, numa tendência global em direção à soberania digital:
- Alemanha (Schleswig-Holstein): Este estado alemão está a migrar 30.000 computadores para Linux e LibreOffice, prevendo poupanças anuais de 15 milhões de euros em licenciamento.
- Dinamarca: Em 2025, o Ministério dos Assuntos Digitais dinamarquês iniciou a sua própria transição para o código aberto, citando a proteção da soberania dos dados.
- China: Com os sistemas Kylin OS e Deepin, a China está a remover hardware e software estrangeiro de todas as instituições governamentais para garantir controlo total sobre o código-fonte.
- Brasil: Organismos como o IBGE voltaram a colocar o software livre no centro da sua estratégia para proteger dados sensíveis.
O caso francês
O governo francês, através da Direção Interministerial para os Assuntos Digitais (DINUM), deixou claro que não quer que infraestruturas críticas do Estado estejam dependentes dos interesses comerciais das grandes empresas tecnológicas norte-americanas. Segundo David Amiel, Ministro da Ação Pública, o país não pode aceitar que os seus dados, infraestruturas e decisões estratégicas dependam de soluções cujas regras e preços são controlados externamente.
Os principais motivos desta mudança são:
- Controlo do Destino Digital: Evitar que as regras, os preços e a evolução das ferramentas de trabalho sejam ditadas por interesses comerciais estrangeiros.
- Segurança de Dados: Ao utilizar programas cujas "regras do jogo" são controladas internamente, a França protege-se contra vulnerabilidades ou mudanças de política de privacidade impostas por empresas fora da União Europeia.
- Influência Regional: Como líder na UE, a França quer dar o exemplo, mostrando que é possível ter uma infraestrutura tecnológica moderna e funcional sem estar "presa" a um único fornecedor (o chamado 'vendor lock-in').
Benefícios
- Personalização: O Linux permite criar uma versão adaptada especificamente às necessidades dos funcionários públicos franceses.
- Ecossistema "La Suite": A França já está a implementar ferramentas próprias como o Tchap (comunicação), Visio (videoconferência) e FranceTransfert, garantindo que o trabalho colaborativo acontece em solo nacional.
- Transparência: O software de código aberto (Open Source) pode ser auditado por qualquer pessoa, o que aumenta a confiança na segurança do sistema.
O Desafio da Implementação
- Curva de Aprendizagem: Milhares de funcionários habituados ao Windows terão de aprender a trabalhar num novo ambiente. A resistência à mudança vai ser o primeiro grande obstáculo.
- Compatibilidade de Software: Muitos programas específicos utilizados na administração pública podem ter sido desenhados apenas para Windows, exigindo versões novas ou alternativas equivalentes.
- Logística e Suporte: Planear a transição de hardware, antivírus, bases de dados e redes exige um esforço de coordenação entre vários organismos, como agências de ciber-segurança e centrais de compras do Estado.
O que isto significa para todos nós?
A decisão da França e dos outros países acima referidos é um lembrete de que o software que usamos no dia a dia tem implicações políticas e económicas. Se a migração for bem-sucedida, poderá inspirar outros países (quem sabe Portugal?) e até empresas privadas a olhar para o Linux não como um bicho-papão, mas como uma alternativa viável, segura e, acima de tudo, livre.
Estas decisões sinalizam uma mudança de paradigma: o software livre deixou de ser uma alternativa apenas para entusiastas, passando a ser uma necessidade de segurança nacional.
Notas:(1) Na realidade, se quisermos ser totalmente rigorosos, existem outras alternativas, como os chamados Chromebook, com sistema operativo ChromeOS da Google, mas são quase desconhecidas do público em geral.
(2) As soluções de Código Aberto ('open source') são programas cujo código-fonte original é disponibilizado publicamente, permitindo que qualquer pessoa o visualize, modifique, melhore e o distribua livremente de acordo com as suas necessidades. Ao contrário do software proprietário, que é controlado exclusivamente pela empresa que o desenvolveu, o modelo 'open source' baseia-se num princípio de colaboração comunitária e de transparência, onde programadores de todo o mundo trabalham em conjunto para corrigir falhas, adicionar funcionalidades e partilhar conhecimento, resultando frequentemente em ferramentas altamente robustas, seguras, flexíveis e com custos de licenciamento drasticamente reduzidos ou mesmo inexistentes.
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